Rio Paiva – Serra da Nave

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Foto: Serra da Nave – Arquivo SOS Rio Paiva

Foi criada recentemente a Associação «SOS RIO PAIVA», com sede em Castelo de Paiva, e independentemente dos objectivos que os jovens fundadores prossigam, seguramente muito louváveis, lembrei-me de lhes, sugerir, aqui e agora, que uma das primeiras coisas a fazer seria saberem e divulgarem o nome exacto onde tal rio tem seu nascimento. E para isso vou fazer uso dos textos que deixei no meu livro «Afonso Henriques, História e Lenda», a partir do que sobre tal escreveu o grande prosador beirão AQUILINO RIBEIRO. Assim digo eu e mais ele:

«Aquilino Ribeiro, na longa introdução que faz ao seu livro «O Homem da Nave» relativamente à mudança do nome original desta serra para serra Leomil, diz que tal «crisma data do dia em que sob a direcção do engenheiro Filipe Folque, os irmãos Costas Perry, procedendo ao levantamento da carta geodésica, içaram no topo mais alto o marco branco que o povo ficou a chamar talefe. Mal informados, ou à laia de homenagem para com a localidade que os agasalhou, promoveram a denominação particular a genérica, passando a figurar nos atlas e publicações oficiais. Mas nunca perdeu o nome que tinha, tanto para as localidades circunscritas à zona montanhosa, como para os mais lugares e a própria cabeça do concelho. Ao autores modernos, que se ocuparam da comarca, Leite de Vasconcelos, Vasco de Almeida Moreira, Manuel Fonseca da Gama, A. Almeida Fernandes, António de Andrade, sem falar em Pina Manique e Albuquerque, geógrafo, etnólogo e campeão estrénuo da Beira-Douro, serra da Nave preferentemente lhe chamam». (RIBEIRO, 1954(a):8-9)

“a verdadeira mãe rio Paiva é a serra da NAVE e que ele dispensa bem ser filho da ama que lhe deram os irmãos Costa Perry sob a direcção do engenheiro Filipe Folque, gratos pela hospitalidade que receberam na povoação de Leomil, durante os trabalhos cartográficos”

Acusação velada para quem de longe, mal informado ou bem agradecido pela hospitalidade dada pelas gentes de Leomil, troca o nome da serra por outro. O caso dá para reflectir sobre quanto saber académico anda por aí divulgado, em mapas e livros, mais produto da ignorância e do agradecimento e simpatia, do que da verdade histórica e geográfica que comporta.

Assim como assim, o mesmo Aquilino Ribeiro, na introdução que faz ao seu livro «Os Avós dos Nossos Avós», obra dedicada à memória de J. Leite de Vasconcelos, esclarece-nos que o topónimo Nave (que era nome original da serra) vem do «euscara» que significa «chapada, corga». E referindo-se às suas relações pessoais com o conhecido investigador e estudioso, natural da Ucanha diz, a dada altura:

«Com efeito, se por hipótese ele do velho burgo da Ucanha, eu do penhascal da Soutosa, estendêssemos os braços por cima do planalto da Serra da Nave – nave em euscara: chapada, corga – que a geografia oficial desdenhosa do nome típico, originário, crismou de Serra de Leomil, sala de bailar dos ventos, atrida do uivar dos lobos que os nossos longínquos antepassados de orcas, castrejos, sepulturas abertas na rocha viva só topariam de permeio Alvite, a povoação dos chatins mais pitoresca e desconcertadora para um etnólogo que imaginar se pode» RIBEIRO, 1990 (b):7)

É meu entender que uma associação designada «SOS RIO PAIVA», para começar, bem andaria se conhecesse e divulgasse que a verdadeira mãe rio Paiva é a serra da NAVE e que ele dispensa bem ser filho da ama que lhe deram os irmãos Costa Perry sob a direcção do engenheiro Filipe Folque, gratos pela hospitalidade que receberam na povoação de Leomil, durante os trabalhos cartográficos.

Abílio Pereira de Carvalho

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