Abrir as portas

Começaram as obras de construção dos chamados “passadiços do Paiva” no concelho de Arouca.

A obra prevê a construção de passadiços e pontes ao longo de um vasto troço do rio Paiva, bem como infraestruturas de apoio à prática de desportos de aventura, entre o lugar de Espiunca e a ponte de Alvarenga, abrangendo a zona da “garganta do Paiva”. Este projecto abre as portas a um troço do Paiva até agora praticamente inacessível ao homem, e que é sem dúvida um dos mais interessantes do ponto de vista ambiental.

Após tomar conhecimento do projecto previsto para a zona da “garganta do Paiva”, a S.O.S. Rio Paiva alertou, em reunião do executivo municipal realizada a 4 de Maio de 2010, o Presidente da Câmara de Arouca e Vereadores, para as consequências de uma obra desta envergadura na conservação do Rio Paiva, obra que previa ainda a construção de um restaurante suspenso junto à ponte de Alvarenga. A Associação alertou também as entidades nacionais com competência nesta matéria para a envergadura deste projecto e as suas consequências.

A utilização do Rio Paiva é fundamental, e não se trata se vedar a prática de actividades de lazer no rio. A questão é encontrar um equilíbrio e definir prioridades.

Tendo em conta as orientações definidas no “Plano Sectorial da Rede Natura” referente ao Rio Paiva, que aponta como “factores de ameaça”, entre outros, as descidas do rio de caiaque, canoa e rafting (sem regulamentação) e aponta como “Orientações de Gestão” o condicionamento da expansão urbano-turística, intervenções nas margens e a construção de infra-estruturas, entendeu a S.O.S. Rio Paiva solicitar à Câmara de Arouca o abandono deste projecto, uma vez que colide com o Plano Sectorial definido para a conservação deste espaço natural.

A utilização do Rio Paiva é fundamental, e não se trata se vedar a prática de actividades de lazer no rio. A questão é encontrar um equilíbrio e definir prioridades.

É tão importante ter zonas com condições para a prática de lazer, como ter zonas isoladas e inacessíveis que permitam a conservação da biodiversidade. Significa isto que num cenário ideal, tendo como prioridade a preservação deste recurso natural, o primeiro passo deveria ser a eliminação dos focos de poluição, problema que, infelizmente, continua por resolver.

Todos sabemos que o Paiva tem problemas graves a montante de Arouca relacionados com a poluição das suas àguas, principalmente pelo deficiente funcionamento de algumas Estações de Tratamento de Águas Residuais nos concelhos de Castro Daire e Vila Nova de Paiva, facto reconhecido e assumido pelo autarca de Arouca. Significa que estamos a abrir as portas às visitas sem antes arrumar e limpar a casa que anunciamos como a mais limpa e asseada da Europa. Será isto sustentável?

Sabemos ainda que estes locais isolados, são propícios a actos de vandalismo e atraem, não só os apreciadores da natureza, mas também aqueles que não compreendem nem respeitam o seu real valor. É impossível uma fiscalização permanente neste local.

Acresce ainda referir que não estamos apenas a falar da melhoria dos espaços de lazer já existente, mas do alargamento da presença humana a uma vasta área, superior a 7 km de extensão.

Estas construções têm aspectos positivos, e serão benéficas para o turismo do município de Arouca, mas serão benéficas para o rio Paiva?

Haverá certamente uma factura a pagar. O tempo se encarregará de revelar o seu custo real.

Sérgio Caetano

Presidente da Direcção da S.O.S. Rio Paiva
passadiços do paiva

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