Poluição, invasoras e sorrisos para o Instagram

O rio Paiva está doente. Muito doente. E não existe vontade política suficiente para inverter esta situação.

Em 2014, escrevi aqui um artigo sobre o turismo e a insustentabilidade de se abrirem as portas do vale do Paiva ao turismo, sem antes “arrumar a casa” e cuidar dela para ser apreciada pelos visitantes. Volto a pegar no assunto, numa altura em que o rio está cheio de turistas a apreciar as águas contaminadas.

Desde 2009 que a S.O.S. Rio Paiva aponta o dedo aos criminosos, apresentando evidências de descargas poluentes no rio Paiva, sem que nada seja feito para acabar com este flagelo. Esta organização não-governamental não baixa os braços, nem cede a interesses, porque existe com um fim muito específico e é hoje uma referência de confiança para mais de 600 associados. Defender o rio Paiva é a sua ingrata missão, num mundo rendido à imagem perfeita no lugar perfeito.

Cabe às autarquias locais um papel fundamental de garantir que o rio Paiva não seja alvo de atentados, e de sensibilizar os privados que não vale tudo para tentar lucrar com a onda de protagonismo que o rio Paiva ganhou nos últimos anos.

Custa muito compreender porque é que o rio Paiva continua a ser “vendido” a milhares de turistas em todo o mundo como um rio de águas cristalinas – “O mais limpo da Europa” – como se os turistas de natureza fossem insensíveis ou ignorantes e não percebam que algo de muito errado está a acontecer neste “negócio” onde todos tentam lucrar o mais possível, num rio onde salta à vista de todos a fraca transparência das suas águas, e a proliferação de acácias e outras espécies de fauna e flora que não deviam estar ali.

No site oficial dos “passadiços do Paiva” não há nenhuma informação sobre a qualidade da água, nem alertas para os riscos para a saúde pública. A desinformação sobre a contaminação das águas do Paiva, causa embaraço aos agentes turísticos, como ainda a semana passada constatei, porque a informação disponibilizada é deficiente e contraditória.

Poluição da ETAR do Arinho em 2019 – Castro Daire (foto: © S.O.S. Rio Paiva)

E não é só a poluição das águas, infelizmente, que ameaça a conservação do rio Paiva. É a destruição da galeria ripícola, a artificialização das margens, o alastrar de forma assustadora das espécies invasoras e exóticas ao lado de barracos, bares e novas unidades turísticas.

Ainda esta semana se confirmou a presença em Arouca de mais uma praga: Egeria densa – uma planta potencialmente invasora oriunda do Brasil que pode atingir 6 metros e formar tapetes flutuantes no rio. Esta planta aquática está na lista de espécies que suscitam preocupação na União Europeia. Junta-se à ameijoa asiática, ao lagostim vermelho, às acácias e outras plantas invasoras que proliferam cada vez mais no vale do Paiva, devido à intervenção humana.

Egeria densa no Rio Paiva (foto: Jael Palhas)

No meio deste cenário, custa-me muito aceitar que sejam gastos quase 2.000.000 € (dois milhões de euros!) numa nova ponte sobre o Paiva, um equipamento que não traz praticamente nenhum valor acrescentado para a conservação do rio, causa um impacto brutal na paisagem, servindo de cenário para milhares de fotos no Instagram, hastag, que lindo! Bem sei que há grandes preocupações e esforços da autarquia de Arouca com o estado de conservação do rio Paiva, mas não compreendo – porque gosto muito deste rio – que continuemos a fazer de conta, a assobiar para o lado e a sorrir para a câmara fotográfica. Não há motivos nenhuns para sorrir: as ETAR de Castro Daire continuam a descarregar, todos os dias, poluição nas águas do Paiva e o cimento e invasoras alastram com força ao longo do vale.

Custa compreender porque é que ainda não se encontrou verba para financiar um trabalho de monitorização da qualidade da água do Paiva, em parceria com a Universidade, que nos dê respostas claras sobre as origens da poluição. Temos pessoas muito qualificadas para o fazer. Haja vontade.

Custa muito compreender, que a legislação criada para garantir a preservação de espaços naturais importantes como é o rio Paiva, seja constantemente violada, descaradamente, sem que as entidades locais coloquem um travão na iniciativa privada. Se as entidades locais (Câmaras e Juntas) fecham os olhos à legalidade e à destruição do património ambiental no seu território, como podem as autoridades nacionais intervir e estar em cima das atrocidades que são cometidas? Não deviam ser as autarquias as primeiras a garantir que a legislação é cumprida em vez de ignorar e de tentar esconder a realidade para não afugentar o turismo?

Nos Estados Unidos, a pequena cidade de Lake Elsinore, no sudoeste da Califórnia foi invadida por milhares de “instagramers” devido a um fenómeno natural, designado de super bloom, que acontece no início da Primavera, quando os campos de papoilas ficam cobertos de um tom alaranjado. O Presidente da Câmara chegou a classificar o fenómeno de invasão de “apocalipse das papoilas”, porque a afluência de visitantes foi de tal ordem que houve necessidade de restringir o acesso aos campos. A ânsia de obter uma foto das papoilas, originou enormes engarrafamentos de trânsito, a destruição de grande parte dos campos de flores e algumas pessoas chegaram a ter que ser resgatadas por caírem nas encostas, apenas para conseguir a famosa foto do super bloom.

Na Âsia uma nova moda nas redes sociais, está a levar à extinção das lontras, isto porque alguns “influencers” descobriram que as fotos com lontras fazem subir exponencialmente o número de seguidores nas suas redes sociais. Aumentam também os caçadores furtivos que retiram as lontras dos seus habitats naturais, para servirem de mascotes em “cafés de lontras” ou para serem vendidas como animais de estimação.

Calma… O mundo não está perdido. Nós humanos é que perdemos a noção do que andamos a fazer neste mundo.

Nota: Durante o tempo que leu este artigo, milhares de litros de esgoto foram descarregados no leito do rio Paiva.

http://visao.sapo.pt/actualidade/mundo/2019-05-30-Como-o-Instagram-esta-a-levar-as-lontras-a-extincao-na-Asia
https://www.mercurynews.com/2019/05/09/big-sur-hates-you/

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