S.O.S. Rio Paiva apresenta propostas para reconversão da floresta e prevenção de incêndios

A convite da Assembleia Municipal de Castelo de Paiva, a S.O.S. Rio Paiva participou no passado dia 24 de Fevereiro num debate público sobre “As consequências da tragédia do incêndio de 15/16 de outubro de 2017, em Castelo de Paiva”, com o objectivo de analisar as respostas dadas e o que falta fazer para prevenir situações idênticas. Foram convidadas para a sessão Individualidades do Governo, de Instituições Públicas e de Associações.

A S.O.S. Rio Paiva, representada pelo Presidente da Direcção e da Assembleia Geral, entregou à mesa da Assembleia e a todos os membros da mesma, um documento onde expressa a sua análise do problema e apresenta medidas para intervir na reconversão da floresta do concelho de Castelo de Paiva, onde predominam os eucaliptais e diversas infestantes, nomeadamente acácias.

Transcrevemos na íntegra o documento enviado à Assembleia Municipal de Castelo de Paiva :

Debate público sobre consequências e respostas emergentes dos incêndios de 15 e 16 Out. de 2017

 

Antes de iniciarmos a discussão sobre a temática dos incêndios florestais que dizimaram o nosso concelho, importa referir que os acontecimentos do passado mês de Outubro se trataram de um fenómeno catastrófico com características e dimensão ímpares. Ou seja, o ordenamento florestal e a prevenção de incêndios são de fulcral importância, contudo as probabilidades mostram que por vezes essa lógica não é suficiente. Os meses de calor que precederam o mês de Outubro, a falta de meios que permitiram o avanço descontrolado do incêndio, a elevada presença de matos e florestas contínuas e mal geridas, a topografia do terreno, as condições climatéricas pautadas por ventos de elevada intensidade, etc. justificaram a quebra dessa lógica natural das coisas.

Do ponto de vista ecológico e, segundo a Associação SOS Rio Paiva, seria importante intervir nas seguintes áreas:

Restituir a flora (parte vegetal presente nos diversos ecossistemas), com especial atenção para a reflorestação com espécies nativas – é importante ressalvar que replantar é importante, mas imperativo é acompanhar essas árvores para que consigam crescer e retomar a paisagem (como são de crescimento lento, acabam por perder a corrida para matos e vegetação arbustiva ou para outras espécies de crescimento rápido).

– Nesta parte da recolonização dos habitats, deverá ter especial atenção a ocupação por espécies invasoras, especialmente do género Acacia (mimosas). Instalam-se e têm vantagem competitiva. O seu controlo e erradicação a posteriori torna-se impossível.

– Ao nível do solo, a matéria mineral (cinzas) que resultou da combustão da camada de matéria orgânica (camada superior do solo, com folhas, detritos, etc.) será facilmente arrastada (lixiviada) pela água das chuvas. Isto juntando a água das chuvas e o declive do terreno resulta numa perda tremenda de solo. (Basta olhar para a Serra da Boneca, do outro lado do rio, para perceber a falta de capacidade do solo para sustentar vegetação).

– Este escoamento superficial (escorrências) terá impactos a médio/longo prazo nos cursos de água:

  • Contaminação por hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAHs) e metais provenientes dos incêndios
  • Como a escorrência de água nas encostas é maior, a probabilidade de cheias a jusante também aumenta
  • As cinzas provocam a turvação da coluna de água o que afeta os restantes organismos.
  • Os detritos que chegam até aos rios vão colmatar micro-habitats (espaços entre as rochas, raízes, etc.) de elevada importância

Medidas concretas propostas pela S.O.S. Rio Paiva:

– Os espaços florestais têm de ser geridos de forma ativa e não abandonados e visitados apenas nas alturas de recolha de lucros:

  • Criar um registo municipal de proprietários
  • Acompanhar e fazer cumprir a limpeza de terrenos
  • Estreia colaboração com Associação Florestal do Vale do Sousa
  • Com as várias instituições de formação do concelho e com os recursos humanos presentes ao abrigo de estágios, criar uma equipa de acompanhamento e intervenção florestal

– A plantação intensiva de eucaliptos e pinheiros é um fator de risco devendo ser evitada. A replantação com espécies autóctones como o carvalho, o sobreiro, o castanheiro, etc é sempre melhor alternativa:

  • Criar algum tipo de benefício/isenção municipal para quem cumpra práticas de gestão florestal sustentável
  • Promover ações de conhecimento e sensibilização
  • A floresta não é só árvores e apostar na sua multifuncionalidade é um bom caminho a seguir (diferença entre monocultura de eucaliptos e uma floresta com diferentes espécies de árvores combinada com produção de cogumelos, produção de mel, pastoreio, etc):
  • Articulação com a Associação Florestal do Vale do Sousa e com Governo para conseguir projetos e alternativas
  • Marca “Payva” – incentivo aos produtores

Quem procura Castelo de Paiva pelas suas serras, rios e vales merece contemplar paisagens biodiversas, merece respirar ar puro e merece fazer parte da nossa Natureza que teimam em transformar em dinheiro. Nós como Associação não-governamental da área de ambiente, queremos contribuir e participar na adoção de estratégias de desenvolvimento sustentável em parceria com as entidades locais, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida das populações em harmonia com a preservação dos recursos naturais que devem ser valorizados e promovidos.

A associação S.O.S. Rio Paiva, aproveita para informar a Assembleia Municipal que, apesar de ter a sua sede em Castelo de Paiva e mais de 600 associados, está instalada em instalações precárias (cedidas por um particular) sem instalações sanitárias, água nem energia elétrica, tendo requerido a cedência de um espaço à Câmara Municipal em 2011, aguardando desde então uma proposta para a resolução deste grave problema.

A Associação é composta por pessoas com formação em diversas áreas, como a arquitetura paisagista, biologia, educação ambiental, comunicação, etc., promovendo estágios remunerados, ações de sensibilização, parcerias com as várias autarquias do vale do Paiva, e estando ao dispor para contribuir para o desenvolvimento sustentável do concelho de Castelo de Paiva.

 

S.O.S. Rio Paiva. Castelo de Paiva, 24 de fevereiro de 2018

 

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